O que muda quando o cliente ganha assento na mesa
Medir satisfação e governar experiência são duas coisas diferentes, e a segunda quase ninguém faz
Por Euriale Voidela · · 5 min de leitura
O que muda quando o cliente ganha assento na mesa
Passei anos levando relatório de satisfação para reunião de diretoria. O número subia, o número caía, alguém comentava alguma coisa, e a reunião seguia para o próximo item da pauta. Ninguém ali era mal-intencionado. É que não existia nenhum mecanismo obrigando aquele número a virar decisão.
Demorei para entender que medir a experiência do cliente e governar a experiência do cliente são atividades diferentes. A primeira é pesquisa. A segunda exige instância, cadência e consequência.
Hoje, quando entro numa empresa, faço uma pergunta que costuma criar um silêncio constrangedor na sala. Peço que me mostrem, com registro, uma decisão que mudou nos últimos doze meses por causa de um dado de cliente. Não uma ação. Uma decisão, com dono, prazo e orçamento.
A maioria não consegue responder. E olha que são empresas que medem NPS religiosamente todo mês.
O vão entre ouvir e decidir
O problema raramente é falta de informação. É excesso de informação sem endereço.
A pesquisa roda. O painel existe. O time de CX sabe exatamente onde dói. Só que essa informação sobe pela organização atravessando três camadas de gestão, e cada camada arredonda um pouco. Quando chega na diretoria, virou um slide com uma seta verde e uma frase genérica sobre oportunidades de melhoria.
Enquanto isso, na outra ponta, o investimento em experiência disputa orçamento com tudo. E perde sempre, porque não tem quem defenda com número de negócio na mão.
Um comitê de clientes existe para fechar esse vão. Ele não é mais uma reunião. É uma instância formal, com regimento escrito, composição definida, cadência fixa e alçada de decisão. Recebe evidência, delibera e registra. Sai de lá com deliberação, dono e prazo.
A diferença entre um comitê e um fórum de escuta cabe numa palavra: consequência.
Três camadas que não são sinônimos
Vejo muita confusão entre três coisas que atuam em níveis distintos.
O comitê de clientes é interno e executivo. Reúne quem pode decidir. É onde a reclamação recorrente vira projeto com verba.
O conselho consultivo de clientes é externo. Convida clientes reais para aconselhar a empresa sobre rumo, portfólio e relacionamento. Eles não decidem pela empresa, mas mudam bastante a qualidade da decisão que a empresa toma. E mudam também a natureza da relação, porque convidar um cliente para o conselho o transforma de fornecedor contratado em parceiro consultado.
O programa de embaixadores é capilar. São pessoas dentro de cada área, comercial, produto, operações, financeiro, TI, treinadas para representar o cliente na rotina e levar evidência de campo para as duas instâncias formais.
As três se alimentam. Uma empresa pode começar por qualquer uma delas, e o diagnóstico é que define a ordem. Se a empresa já mede e não decide, o caminho é o comitê. Se decide bem internamente mas está distante do mercado, é o conselho consultivo. Se a cultura ainda não sustenta nenhum dos dois, começa pelos embaixadores.
Não precisa ter conselho de administração
Essa é a objeção que mais escuto, e ela costuma vir de empresas médias em crescimento acelerado.
Minha resposta é que é justamente ali que o ganho é maior. Empresa de médio porte crescendo rápido decide rápido, quase sempre sem estrutura de governança. Um comitê bem desenhado dá disciplina de decisão sem burocratizar a operação. E prepara terreno para a estruturação de um conselho depois, com histórico documentado de deliberação, que é exatamente o que qualquer processo de due diligence vai pedir.
Escrevi sobre isso em Os Conselheiros, relatando a experiência de implantar um comitê de clientes dentro de uma estrutura de conselho consultivo. O que funcionou, o que resistiu, e o que eu faria diferente hoje.
O objetivo do projeto é a nossa saída
Quando conduzo uma implantação, o entregável não é relatório.
É estrutura que continua funcionando depois que eu saio da sala. Regimento, calendário anual com pauta temática por ciclo, arquitetura de indicadores que chega ao board, modelo de ata deliberativa, plano de ação vinculado a cada deliberação, e uma secretaria interna treinada para assumir.
Costuma levar de quatro a seis ciclos até o comitê andar sozinho. Conduzo os primeiros encontros junto com quem vai ficar, preparo pauta com eles, faço a curadoria da evidência, facilito a sessão, registro. E vou saindo de cena a cada ciclo.
Se depois de um ano o comitê depende de mim para acontecer, o projeto falhou.
O que muda de verdade
A liderança passa a decidir prioridade com dado de experiência na mesa, e não com a percepção isolada de cada área sobre o que o cliente quer.
O tema entra em calendário com a mesma disciplina do resultado financeiro. Deixa de ser assunto de crise.
E a disputa de narrativa entre comercial, operações e produto diminui bastante, porque passa a existir uma única versão da verdade sobre o cliente, construída em conjunto.
Existe uma diferença enorme entre ouvir o cliente e dar poder de decisão ao que ele diz. A primeira é comum. A segunda ainda é raríssima no Brasil.
Se quiser conversar sobre o desenho de governança da sua empresa, o diagnóstico de maturidade leva de duas a três semanas e já sai com uma recomendação de formato.